domingo, 3 de outubro de 2010

Hoje não mais ...

Hoje não... mais!




Hoje eu não quero sorrir

Não agüentaria ver-te partir

Escondo minha face sob as sombras dos azuis

Na tela onde a dor cromatiza o último beijo



Crio perfumes com o veneno do teu descaso

Não ouse esboçar mais mentiras ao acaso

Teço um precipício com as tuas desconfianças

Pois feriu de morte meu amor sem esperanças



Encubro de véus minha alma embotada pela mágoa

Desabando em encostas encharcadas de chuva

Componho vazios com os meus desejos silenciados

Grito mudo sem absorver tuas palavras



Despejo vulcões sobre as tuas prepotências

Não deste trato às minhas carências

Hoje eu não quero sentir...

Dores com que queres me aferir



Não quero nem mesmo escorrer as decepções

Resguardo-me do teu oceano de ilusões

Que ainda estão em minhas mãos, em meus fluídos

Contaminada que fui por teus ardis



Hoje eu não quero sorrir...

Tampouco chorar...

Fecho os olhos para a luz que devassa as frestas

Hermeticamente fechada, aparando arestas



Recolho as minhas tempestades à incômoda crisálida

Sou borboleta sem asas cortadas por ti

Hoje eu não quero existir...

Entrego-me à inércia dos dias que virão



Risco as rimas de todos os orgasmos

Entranhas reviradas em espasmos

Apago os meus poemas da tua memória

Nas entrelinhas perdeu-se a nossa história



Rasuro as minhas entregas

Que em teu ego esfregas

Amasso as vontades...

Que em ti ainda navegam



Descanso meus dedos

No fundo dos teus segredos

Dispenso os sentidos

Desejo sossego...



Seco os lábios...

Ainda umedecidos

Hoje não atendo os pedidos

Suspiro sofrido.



Não escrevo poemas

Nem bilhetes encardidos

Anestesio o coração

Desligo a alma

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